Como escrever um bom texto em 4 passos

    Escrever bem parece uma arte. Você sabe como estruturar um texto para uma leitura agradável mas também com boa indexação pelos algoritmos de pesquisa? Aprenda como melhorar sua escrita com uma pesquisa pioneira em estatística baseada nos livros de maior sucesso, técnicas de SEO focadas no texto, observações de William Zinsser — autor de "Como escrever bem" um guia internacionalmente reconhecido com mais de 1 milhão de cópias vendidas, "O Guia da Escrita" de Steven Pinker — psicólogo e linguista canadense — e a estrutura de filmes de Hollywood baseado no "O herói de mil faces" — um livro de Joseph Campbell analisando contos e mitologias do mundo inteiro.
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Tempo médio de leitura: 25 minutos

Tutorial: Como escrever um bom texto

  1. Faça o esboço do título e da descrição no primeiro parágrafo — lead
  2. Antes de escrever, planeje o uso das palavras-chaves, dos pronomes, do estilo e do tempo
  3. Faça a re-escrita do texto, simplificando e melhorando a escaneabilidade (subtítulos, tamanho e ordem dos parágrafos e sentenças)
  4. Dê os últimos retoques no título e na descrição e escolha o melhor horário para publicar

Índice

SEO para o Texto: Técnicas para melhor indexação nos mecanismos de busca
Estrutura do Texto: Estilo, subtítulos, parágrafos e escaneabilidade
Algoritmo do Sucesso: Pesquisa sobre os livros de maior sucesso
A Jornada do Herói: Estrutura de Hollywood baseada no livro "O herói de mil faces"
Publicando: Os melhores horários para cada rede social

SEO para o texto

    Antes de começar a escrever, é bom ter em mente como funciona o processo de pesquisa e indexação na internet. Search Engine Optimization é o conjunto de técnicas (não só de textos) para otimizar o conteúdo para os mecanismos de busca melhor o posicionarem na internet, já que 90% das pessoas clicam nos resultados da primeira página do Google após a pesquisa. Os fatores on page estão relacionados a estrutura da sua página e ao conteúdo em si, são os que você geralmente tem controle direto e são de sua responsabilidade. O Google está constantemente melhorando o algoritmo, e desde o lançamento da versão hummingbird o uso da palavra-chave mudou bastante, junto com o foco nas redes sociais.

    É importante que a palavra-chave apareça logo no início para mostrar do que o artigo se trata. Ela deve se repetir com alguma frequência ao longo do conteúdo, demonstrando que não é um click bait — isca só para atrair cliques. O Google faz também uma análise semântica do conteúdo (Latex Semantic Index), logo é importante usar alguns sinônimos, variações e palavras relacionadas.

    Existem dois tipos de palavras chaves: as Head Tails que são as mais populares e as Long Tails, derivando a palavra principal são mais específicas e menos concorridas sendo mais fácil de obter alguma autoridade sobre elas. Existem ferramentas usadas por profissionais só para analisar palavras-chaves, a estratégia básica é usar uma Head Tail acompanhada de uma Long Tail e estruturar o conteúdo em um nicho derivado.

SEO (head Tail) para o texto (Long Tail)

    Existem mais de 200 fatores envolvidos, mas vamos focar somente nos principais em relação ao texto. Caso queira aprofundar seus conhecimentos em SEO você pode consultar este guia oferecido pelo próprio Google.

SEO para o texto:

  1. Título: Objetivo e direto, deve ter menos de 50 caracteres e a palavra-chave principal aparecer primeiro. Também será parte do URL — endereço da página, mantenha as palavras separadas por hífens. Nunca atualize a URL depois do conteúdo ser indexado.
  2. Descrição: O lide — termo jornalístico do inglês lead — é o primeiro parágrafo e serve para apresentar o artigo. Deve usar a palavra-chave e induzir para os benefícios da leitura, assim como a Meta-Description — descrição da pesquisa, essa é mais curta deve ter no máximo 150 caracteres e é identificada no HTML. Nas prévias do link a combinação de título e meta-description é mostrada na íntegra quando tem até 90 caracteres.
  3. Subtítulos: facilitam a leitura e a estruturam em tópicos, estão identificados em HTML pelo código H1 ao H6. Porém do H4 ao H6 seu uso é estético e não afeta o SEO. Deve ter apenas um H1 no artigo — o título principal, e as long tails nos subtítulos ajudam a derivar a palavra-chave.

Estrutura do Texto

    Ao contrário da medicina e outras ciências, dificilmente veremos na primeira página de um jornal uma manchete dizendo que foi feita uma importante descoberta sobre como escrever uma boa sentença em português. Estas informações já são conhecidas há séculos. Sabemos que verbos têm mais vigor do que substantivos, que verbos ativos são melhores do que verbos passivos, que palavras e frases curtas são mais fáceis de ler e que detalhes concretos são mais fáceis de entender do que abstrações vagas.

    Segundo uma pesquisa feita pela SerpIQ a média dos conteúdos das primeiras posições na página do Google é de aproximadamente 2.500 palavras, o que demora cerca de 20 minutos para ler. Os bots procuram conteúdos mais completos, e você precisa conciliar isso a necessidade de consumo de informações rápidas e dinâmicas do cidadão moderno. Precisa fazer com que a maioria das dúvidas de quem o procura sejam respondidas sem esquecer que o tempo que o usuário passa lendo seu artigo — tempo de retenção — é um dos principais fatores para rankear demostrando que seu conteúdo é de qualidade.
Imagem: Gráfico de barras mostrando a média das palavras dos artigos nos primeiros resultados

Você sabe como estruturar um texto para uma leitura agradável mas também com boa indexação pelos algoritmos e bots de pesquisa?

    A parte mais importante e difícil de escrever em um texto é o primeiro parágrafo. Servindo para introduzir o assunto e anunciar os benefícios da leitura, o lead pode começar mostrando uma pergunta instigante como no exemplo, um paradoxo, uma novidade ou ainda usando humor. O humor é uma peça chave na boa escrita. É construído a partir da surpresa, uma quebra de expectativa, e você só consegue surpreender o leitor às vezes. Não dá para fazer surpresa o tempo todo. Não repita o mesmo tipo de piada, os leitores já ficam satisfeitos com a primeira vez. Atenção especial a credibilidade. Não infle o relato de algo só para torná-lo notável. Se o leitor pegar você em uma única declaração falsa tudo que vem a seguir é recebido com desconfiança. É um risco que não vale a pena correr especialmente no lead, onde já acostumamos a desconfiar de tudo de tanta má prática. A maioria das pessoas tem um complexo de definitividade, como se tivessem a obrigação de ter a última palavra sobre o assunto que estão tratando. Algo que é definitivo hoje pode não ser amanhã, portanto, antes de começar a escrever, o projeto de um texto pode ser reduzido aos limites autor. Não busque passar informações do que você não está familiarizado, informe-se. Mantenha uma posição proativa que afirme sua perspectiva evitando "contra narrativas" que critiquem outros pontos de vista — uma crítica raramente edifica algo, ela parte de um principio já criado e só expõe seus problemas dificilmente propondo uma mudança efetiva.

    Algumas questões, propostas por Zinsser, podem ajudar entrar no ritmo se tiver com dificuldade para começar a escrever:

"Em que nível vou me dirigir ao leitor?” Como provedor de informação? Como homem comum?
    “Que atitude vou adotar diante do assunto?” Envolvido? Indiferente? Distante? Crítico? Irônico?
    “Qual pronome usar?" Na primeira pessoa, como um participante, ou na terceira pessoa como observador?
    “Qual estilo? Impessoal, pessoal mas formal?”
    “Qual o tempo verbal?" A maioria escreve no passado, o que importa é não mudar de tempo a todo momento.
    “Que extensão do tema vou tratar, quais pontos aprofundar?

    Um texto agradável também deve conter certa uniformidade, mas durante uma entrevista por exemplo manter as particularidades da construção da fala dos entrevistados acrescenta elementos de sua regionalidade, origem e grupos sociais. O uso da linguagem coloquial atinge um público maior, e o estilo mais popular atualmente em blogs e sites lembra o estilo clássico dos franceses do século XVII que formaram fortes bases do jornalismo. Trabalhar a escrita como se fosse uma conversa direta com o leitor aumenta a imersão e a cordialidade, isso pode ser feito usando os pronomes "eu", "você" e "nós". Acrescentar detalhes também ajuda a aumentar a veracidade das histórias. Busque informações precisas, verbos no indicativo, identifique bem os personagens e os fatos principais — isso é chamado de ângulo no círculo jornalístico — depois cite o local, as datas e outras informações.

João da Silva, morador da rua 2 da Rocinha, encontrou a mala de dinheiro em um terreno baldio na manhã deste domingo

    Evite o uso exagerado de gerúndios e redundâncias:

Falando, escrevendo ou argumentando você não precisa repetir a mesma coisa de formas diferentes; isto é, basta mencionar cada argumento uma só vez, ou, por outras palavras, não repita a mesma ideia várias vezes.

    Não limite sua fala pela timidez ou falta de confiança, corte pequenas palavras que qualificam como você se sente, como você pensa ou como você vê. Por exemplo: “um pouco”, “tipo de”, “muito”, “também”, “no sentido de”, e muitas outras. O uso dessas expressões enfraquece o estilo e a persuasão. Não diga que você estava um pouco confuso, ou tipo; ou pouco cansado, ou um pouco alegre ou um pouco feliz. Fique confuso. Esteja cansado. Fique alegre. Fique feliz. "Muito" é uma palavra que quase pode ser banida da boa escrita. Entre "Não foi João quem roubou, ele é honesto" ou "Não foi João quem roubou, ele é muito honesto", a primeira sentença passa mais convicção pois na segunda frase querendo aumentar o adjetivo, o uso do "muito" acaba restringindo-o exatamente por passar a sensação que a honestidade pode ser medida.

    Os textos têm dois participantes: o escritor e o leitor. Ao escrever não fique imaginando sua audiência como uma multidão nem o produto final do seu texto. Essa multidão não existe cada leitor é uma pessoa diferente, e pensar no produto final desvia sua atenção do momento presente — esse problema tem raízes na nossa cultura de adoração do resultado vencedor. Na internet oque importa são suas idéias, não importa quem você seja. Escrever é um exercício solitário assim como ler. Ninguém no mundo conseguiu escrever um texto ou livro que todos dos leitores fossem até o final, nem mesmo os textos considerados sagrados como a Bíblia ou Alcorão. Em cada livro, artigo ou texto ou você também tem sucesso como leitor ou não. Escrever e ler são exercícios do pensamento, estimule o leitor a pensar e seus textos irão queimar como combustível de suas idéias.

Ordem e Coerência

    A ordem das sentenças também desencadeiam insights — termo em inglês que significa clareza súbita na mente, geralmente antecede alguma idéia e sendo preponderante na criatividade é o momento em que se chegou a conclusão sobre verdades ocultas ou a verdadeira natureza de uma situação. Controle a ordem dos pensamentos do leitor, é a fome de coerência que guia a compreensão da linguagem. Tente trabalhar para sustentar a expectativa do leitor palavra a palavra até a conclusão da sentença. Atenção especial também a última sentença de cada parágrafo, porque ela tem que levar o leitor ao próximo e assim sucessivamente até o fim do texto. Mantenha um fluxo progressivo dos conceitos necessários antes de adicionar novas idéias na mente do leitor, do mais simples ao mais complexo. A ordem cronológica também é intuitiva. Pois, segundo a psicologia cognitiva as pessoas aprendem coisas novas integrando as que já sabem na sua rede de conhecimentos. Durante a leitura é desgastante manter na memória de curto prazo um fato que aparece flutuando do nada a espera de um sentido para encaixá-lo.

    Evite expressões negativas, seguir negações é cansativo para o leitor e além de enfraquecer a persuasão até mesmo o escritor pode se perder com o uso sucessivo de negações deixando a entender o oposto do que queria dizer. Geralmente uma única palavra da todo o sentido de negação em uma frase, e com 90% da frase orientada de maneira afirmativa o insigth que ela gera é exatamente o oposto da negação.

Não imagine um urso branco

    Cuidado também ao definir os interlocutores de citações durante a sentença dentro de um parágrafo, é bom apresentá-los o mais cedo possível mas sem quebrar a conclusão da primeira sentença. Exemplo de quebra no meio da sentença: “Eu normalmente gosto,” disse o Sr. Silva, “de ir ao centro uma vez na semana e fazer um lanche com alguns de meus velhos amigos.” Corrigindo: “Eu normalmente gosto de ir ao centro”, disse o Sr. Silva, “uma vez na semana e fazer um lanche com alguns de meus velhos amigos.” Porém trabalhar a citação com o autor na terceira pessoa enfraquece a proximidade com o leitor: O Sr. Silva disse que ele gostava de “ir ao centro uma vez na semana e fazer um lanche com alguns de meus velhos amigos”. Quando puder, use citações fora dos parágrafos, além de terem um impacto visual melhor são mais fáceis para o escritor trabalhar e para o leitor assimilar.

    Outros problemas como o 'caminho do jardim' — sentenças ambíguas, são um gênero estudado em psicolinguística — podem passar despercebidos para o escritor, mas são penantes para o leitor parar o ritmo de pensamentos progressivos durante a leitura para pensar nas possibilidades de interpretação. Mantenha atenção redobrada a isso ao simplificar o texto ocultando certas características.

    Torne o texto fácil de ser lido — escaneabilidade — organize bem os subtítulos e parágrafos, destaque trechos importantes usando negrito ou itálico mas sem abusar pois no final você pode acabar não destacando nada. Longos blocos de texto desanimam qualquer leitor. Os parágrafos devem ser curtos e trabalhados de acordo com o tema, além de mais estético e agradável a percepção de avanço na leitura é facilmente assimilada. Se por exemplo estiver escrevendo sobre a bandeira do Brasil, cada cor será explicada em um parágrafo. Em um texto dissertativo os parágrafos básicos são: introdução, desenvolvimento e conclusão. O Google ainda pode quebrar seu conteúdo para se adaptar e responder perguntas como snippets de parágrafos — que em média têm 45 palavras ou 293 caracteres —, listas — o Google adora listas, use-as sempre que puder — ou até tabelas. Snippet é um termo de programação para uma pequena região de código reutilizável. Sempre que possível combine listas, tabelas, imagens, videos ou áudios para aumentar a qualidade dos seus snippets.

    Geralmente escutamos mentalmente as palavras ao ler, um bom escritor consegue trabalhar as sentenças de acordo com a sonoridade, com a repetição de fonemas no início, meio ou fim de vocábulos próximos. Bons escritores usam recursos como palavras menores ou que tenham melhor sonoridade e invertem a ordem ou o tamanho das sentenças. Entre os bons escritores prevalece o uso de sentenças pequenas, a menos que ele seja um gênio. Se você quer escrever sentenças longas então seja um gênio, mas o recurso de frases curtas de vez em quando têm um impacto enorme. Elas ficam no ouvido do leitor.

    O parágrafo acima foi oque mais me ajudou a reformular minha escrita enquanto estudava para escrever esse artigo. Eu era uma máquina de vírgulas e frases longas, oque é natural durante a escrita pois segue o fluxo rápido dos pensamentos. Mas para a leitura notava a dificuldade em manter a linha de raciocínio, e frequentemente re-lia tudo com mais atenção para entender. Nunca tinha parado para entender o real motivo da leitura difícil, não só em meus textos mas em muitos outros que frequentemente tinha que fazer a re-leitura. Esse é o valor do ponto em uma frase. Acabar logo com a síntese de uma ideia sem enrolação é o fator principal que torna uma leitura agradável.

Simplificar

    Atenção, esta é a principal dica sobre como escrever bem: Segundo Zinsser, os melhores escritores do mundo são na verdade re-escritores. Contrariando a ideia popular de que um bom escritor raramente revisa seus textos, os bons escritores não conseguem parar de remexe-los e tiram o máximo de vantagem desse tipo de comunicação que não é em tempo real. Ao reescrever é importante que se coloque no lugar do leitor. Por vezes uma vida de estudos pode sobrecarregar tanto a mente de erudição e suas ideias se atropelam em uma avalanche mais depressa do que você pode organizá-las. O problema é que a ordem dos pensamentos que vem na mente do escritor é diferente da melhor ordem para o leitor entender. Ler em voz alta é uma boa técnica, pois reler mentalmente os próprios textos não acrescenta em muito na percepção de como o texto soa de maneira inédita para alguém. Se tiver problemas durante a leitura em voz alta, provavelmente outras pessoas também terão.

    Em um texto tenha certeza de responder claramente as perguntas "Oque é...?", "Por que...?" e "Como...?" referentes aos assuntos que abordou. A principal causa da escrita incompreensível é a dificuldade de imaginar como é para o outro não saber uma coisa que você sabe. É a maldição do conhecimento, quanto mais você conhece alguma coisa menos você se lembra de como foi difícil de compreendê-la no início. E ao explicar não nos damos conta do nível de dificuldade que é para um leigo interpretar algumas abstrações. Nunca atribua má fé aquilo que pode ser explicado pela ignorância.

    A elegância de uma boa escrita se resume em simplificar. O narcisismo de travestir as mesmas idéias com sinônimos e frases diferentes deve ser evitado. Bem como o uso de aspas que, na metalinguagem, dizem que o escritor não conseguiu se expressar melhor. Palavras difíceis raramente demonstram eloquência, na maioria das vezes elas demonstram arrogância. Palavras monótonas são aquelas com três, quatro ou cinco sílabas, a maioria de origem latina. Em média, palavras em português são vinte por cento mais longas que palavras na língua inglesa. Alguns exemplos de palavras que podem ser substituídas por palavras menores: “assistência” (ajuda), “numeroso” (muitos), “implementar” (fazer), “constitui” (é). Há, ainda, muitas expressões que podem ser simplificadas e até eliminadas, como: “Eu gostaria de acrescentar que”, ou “É importante mencionar que”, ou “É interessante notar que”. São autorreferências. Ora, se você quer acrescentar alguma coisa, então acrescente, se acha importante mencionar algo então mencione, se quer mostrar algo interessante então mostre. Ainda há outras que podem ser simplificadas como: “com uma possível exceção de” (exceto), ou “devido ao fato de que” (porque), ou “com o propósito de” (para). Um texto simples livre de siglas, jargões e termos complexos também é mais fácil e agradável de ser lido. Um texto bem escrito transcreve assuntos complexos como as equações e dilemas do big bang de forma que um leitor leigo se sinta um gênio ao compreender.

Algoritmo do Sucesso

    A primeira pesquisa com análise massiva de dados que pretende predizer o sucesso de livros baseados em seus estilos de escrita. Baseado em mais de 38 mil livros disponíveis do Projeto Gutenberg — acervo online gratuito — atinge a precisão de até 84% em livros e 89% em roteiros de filme. Alguns elementos são dependentes do gênero surtindo efeitos diferentes nesta análise, enquanto outros são mais universais demonstrando interessante correlações entre sentimento/conotação, insights além de resultados contrários a crença popular.

    Os livros de maior sucesso utilizam mais verbos de processamento de pensamentos (“reconhecido”, “relembrar”) e verbos que descrevem citações ou relatos ("dizer", “citar”). Além de usar mais frequentemente conectores de discurso, preposições, substantivos, pronomes, conjunções e adjetivos.

    Conectores de discurso podem deixar o texto mais interligado. Essas são palavras de transição ou de mudanças de estado que também juntam duas ideias, sentenças ou fragmentos de sentenças:

Você deseja ser livre, mas você não sabe como

    Amplia-se o poder de engajamento se usadas no início de uma sentença:

Sim, as palavras são poderosas quando bem escritas
então, nós pensamos que logo essa sentença estará completa
mas a verdade é que não há mais nada a acrescentar
porém você não consegue parar até ler até o final
logo, você continua lendo por causa dessas palavras
que estimulam nossa expectativa

    Curiosamente, livros de sucesso tendem a ter semelhança com artigos informativos. Trabalhos acadêmicos citados em revistas são mais legíveis, caracterizados por maior porcentagem de sentenças simples. Características sintáticas profundas expressas em termos de diferentes regras gramaticais produzem consistentemente bons romances em quase todos os gêneros. Essas regras são específicas para ganhar insights de alto nível. Livros mais bem sucedidos envolvem orações em estruturas de sentenças complexas e estruturas de sentenças invertidas, enquanto livros de menos sucesso dependem quase que exclusivamente da estrutura simples da sentença:

Eu gosto de você

    Invertendo a ordem das sentenças para "De você eu gosto", a ênfase recai sobre o sintagma "De você" gerando uma mudança de foco. Nesse exemplo, a palavra gostar é restringida pela primeira sentença que passa a sensação de estar incompleta e pede um complemento: "De você eu gosto, dela não". Essa técnica também é muito utilizada junto a manipulação semântica, onde estudos demonstram que apresentar o lado positivo antes do negativo aumentam as chances da mensagem ou escolha ser aceita — e apresentando o lado negativo antes aumentam as chances de recusa. Aliás a construção sintática das frases deve em sua maioria seguir um fluxo progressivo, construindo os insights no leitor a partir de princípios bem específicos e concluir com uma sugestão óbvia ou ordem direta. Porém em algumas situações quando queremos que o leitor sinta que a conclusão foi por conta própria, é interessante inverter essa ordem e apresentar sutilmente a sugestão antes.
Imagem: Tabela com as palavras de maior sucesso e menor sucesso e suas diferentes categorias
Tabela com as palavras de mais e menos sucesso
    Livros de menos sucesso confiam mais em descrições envolventes (por exemplo "sem fôlego"), palavras carregadas de sentimentos (por exemplo “amor”), palavras extremas e negativas (como "risco"), locais típicos ("quarto", "praia","montanha", etc), dependem de verbos que são explicitamente ações ou emoções ("queria", "levou", "prometeu", "chorou", "aplaudiu", etc) e têm uma maior porcentagem de verbos, advérbios, interjeições e fragmentos. Diferente da crença popular, o excesso de frases verbais correlaciona-se fortemente com o estilo de menos sucesso nesta pesquisa:

Os alunos mataram aula.
Os jogadores foram para o jogo.
O professor ainda não chegou.
Algoritmo do Sucesso da Stony Brook University Pesquisa original

A Jornada do Herói

    Um guia de Christopher Vogler baseado no livro "O Herói de Mil Faces" de Joseph Campbell, uma obra seminal com rigor acadêmico sobre mitologia comparada. Sendo uma das maiores referências no estudo de mitologia e religiões, faz um paralelo entre diversos mitos e histórias do mundo inteiro com conceitos de psicologia, servindo como base para muitos roteiros de filmes de Hollywood. Também pode se dividir no formato Aristotélico em 3 atos:

    Ato 1: Início - Setup
  1. Mundo Comum: Apresente o protagonista, o dia a dia e o mundo cotidiano. Pode começar também com um problema ou situação a ser resolvida — um gancho tem o mesmo objetivo de conectores de discurso no início da frase, o objetivo é aumentar o engajamento estimulando a expectativa do leitor.
    Dica: Mostre e não descreva, deixa o leitor tirar as próprias conclusões. Muitas histórias tem por base a "Jornada do Idiota" onde o protagonista é uma pessoa comum, oque faz grande parte do público se identificar. Alguns elementos comuns em histórias com essa premissa é a identificação das dificuldades do cotidiano, a autenticidade do protagonista admitir e mostrar seus próprios erros e sua transformação ao longo da história. Quando o protagonista vira uma referência inspiradora, isto é quando o maior foco da história está na transformação do protagonista ela deixa de ser a "Jornada do Idiota" e o modelo passa a ser chamado de "Jornada do Sucesso".
  2. Chamado à aventura: A rotina do herói é quebrada por algo inesperado, um erro ou mero acaso pode revelar um mundo novo, com fontes profundas e incompreendidas. O arauto que apresenta o chamado costuma ser misterioso — pode remeter também a fecundidade, é a parte do inconsciente trazendo à tona modificações para o mundo tranquilo e bem estruturado do herói.
    Dica: Só existe história se o personagem for interessante e se seu desejo for frustrado.
  3. Recusa ao chamado: O herói não quer se envolver e prefere continuar na rotina segura de sua vida, aprisionado pelos próprios interesses pessoais, sociais, culturais ou mesmo por medo. Pode também ser obrigado a atender, pois o chamado é para a execução de algo para além de apenas benefícios pessoais.
    Dica: Essa etapa nem sempre é necessária, pode ser que o evento ocorrido na etapa 2, o chamado à aventura, não deixe margem para recusas. Mas existem histórias que tem como principal ponto a recusa ao chamado, podendo haver uma força personificada em algo ou alguém que frustre a vontade do nosso herói, as vezes o próprio vilão da história. A escolha do vilão também modifica um pouco a estrutura da história, quando o vilão é um inimigo público por exemplo o interesse comum gera uma simpatia natural pelo herói. Histórias onde o vilão é o inimigo público compartilham de elementos como "Se você não é um dos nossos está contra nós", "O segredo que eles não querem que você saiba" e "O despertar".
  4. Encontro com o Mentor ou ajuda espiritual: Pode ser tanto com alguém mais experiente ou com uma situação que o force a tomar uma decisão. Ganhando uma orientação primordial, instruções, um amuleto para auxiliar na jornada ou mesmo , se extremamente motivado, só irá elaborar um plano de ação caso não haja algum mentor. Mesmo com a recusa ao chamado, forças externas inconscientes ou espirituais podem levar ao desenrolar da jornada.
  5. Início da Jornada: Nessa fase o herói se decide, e cruzará um limiar psicológico com valores subconscientes muitas vezes sombrios que abalem os valores e morais tradicionais. O guardião do limiar pode alertá-lo dos perigos, por isso é bom respeita-lo. É interessante a imersão psicológica no subconsciente pois ao invés de mergulhar mundo a fora o herói mergulha para dentro e elementos visuais da história personificam as crises, medos e valores internos. A passagem de limiar é algo mágico, é uma iniciação. Tem referências como o famoso "ventre da baleia" na história de Jonas, sendo um novo útero para o renascimento e faz diversos paralelos com o herói sendo devorado ou adentrando em um mundo completamente diferente em diversos mitos.

    Ato 2: Meio - Conflict
  6. Testes, aliados e inimigos: A maior parte da história se desenvolve nesse ponto, no mundo novo — fora do ambiente normal do herói — passando por testes, recebendo ajuda, esperada ou inesperada, e enfrentando inimigos.
    Dica: Como se trata da parte mais longa, é interessante se construir essa parte com embargos, pontos médios, sub-enredos contando histórias paralelas e reviravoltas. Geralmente há uma desconstrução do herói original bem como do seu ego por completo. Ao longo do tempo as coisas que possui é que acabam te possuindo, e, abandonando-as sua verdadeira essência deve ser revelada para passar desse limiar.
  7. Aproximação do objetivo: O herói se aproxima do objetivo principal, mas o nível de tensão aumenta e tudo fica indefinido. Pode ter algo inesperado como morte de um personagem ou perda de um artefato importante, às vezes complementando a etapa anterior.
  8. Provação máxima: É o auge da crise, o confronto final. Pode ser usado em conjunto com um gancho.

    Ato 3: Fim - Resolution
  9. Conquista da recompensa: Benção conquistada após passar a provação máxima.
  10. Caminho de volta: É a parte mais curta da história, em algumas sequer existe. Após ter alcançado seu objetivo, ele precisa retornar ao mundo inicial com os novos conhecimentos para compartilhar.
  11. Depuração: Aqui o herói pode ter que enfrentar uma trama secundária ainda não resolvida ou mesmo uma chave ou segredo importante é revelado.
    Dica: faça isso ser uma surpresa absoluta, mostre e não descreva.
  12. Retorno transformado: É a finalização da história, o herói volta ao seu mundo mas transformado.
    Dica: Ao estruturar o personagem, existe os que se transformam e os que permanecem inalterados. Normalmente, a história é melhor quando o herói se transforma em alguém melhor.

Dicas pessoais

    Hoje é difícil prender a atenção por muito tempo em meio a tanto conteúdo, por isso é bom causar um bom impacto inicial, seja com imagens, frases, ganchos, etc. Transformar o ordinário em fantástico, e com com uma mensagem clara e direta como moral da história, adotar a postura de mentor da jornada deixando o leitor como herói. Se o objetivo é ter uma moral da história o principal é fazer o leitor se envolver com a mensagem.

    As histórias com mais impacto geralmente são as mais simples. Destaque uma pessoa como exemplo, mostre a jornada e o desafio dela e o que pode ser feito para melhorar a situação, é mais intuitivo ao leitor do que falar das milhares de pessoas que precisam de ajuda ou de problemas complexos. Ao criar um roteiro use a teoria das cores — as séries Breaking Bad e Dark são grandes referências nesse aspecto, escute músicas que estimulem sua criatividade e explore saltos para abstrações se aproveitando do imaginário coletivo com conceitos e situações populares da atualidade.

Publicando

    A frequência das publicações é importante para manter a presença caso você trabalhe com redes sociais. Porém fique atento a qualidade, as vezes uma única publicação vale mais em acessos do que centenas juntas. Para blogs é interessante a relação entre objetivo e frequência:

  1. Aumentar o tráfego: 3 a 5 publicações por dia
  2. Manter a taxa de crescimento: 1 publicação por dia
  3. Manter o engajamento sem se preocupar com o crescimento: 2 ou 3 por semana

    Entender os melhores horários para publicar é interessante pois gera mais engajamento por parte da comunidade além de melhor rankear seu conteúdo de acordo com cada rede social. O melhor que você pode fazer é acompanhar as suas próprias métricas e determinar o melhor horário para cada uma das suas redes de acordo com seu público. Mas essa pesquisa da TrackMaven pode servir como ponto de partida:
Imagem: Infográfico com os horários de pico de cada rede social

Considerações finais

    É interessante o que geralmente vem em mente com a frase “Como escrever bem”. Um poema ou poesia de escrita rebuscada do século XIX? Ao longo do artigo fui complementando cada parte com vários trechos do livro “On Writing Well” — Como escrever bem, de William Zinsser. Focado principalmente no formato não-ficção, é interessante a análise que ele fez em relação a boa escrita e sua mudança no século passado nos EUA: Devido a segunda guerra mundial as pessoas começaram a ansiar por notícias dos fronts de batalha, isso foi reforçado com o advento da televisão. Da noite para o dia os americanos começaram achar o ritmo dos romancistas muito lento e se tornaram uma nação de mentes agarradas a fatos. Logo, os escritores de não-ficção seguiram um modelo parecido com o de repórteres, que em entrevistas têm a função de organizar e trazer a tona insights de informações ocultas nas mentes das pessoas.

    A maioria do material consultado na elaboração desse artigo foi baseado na língua inglesa, e isso tem um grande contraste em comparação com a tradição brasileira de escrita. A boa escrita não só no Brasil mas em todo mediterrâneo tem uma estrutura mais ligada a floreios, poesias, crônicas e construções circulares. Geralmente são escritores-humanistas clássicos com uma identidade marcante que servem de inspiração nessas regiões. Zinsser por vezes é criticado nesses círculos acadêmicos pela proposta que a simplicidade na escrita segue em direção contrária a muitas escolas já consagradas na história desses países. Definir a boa escrita parece algo complexo, decidir entre a facilidade na interpretação da mensagem ou na graça artística da transmissão de idéias. As tendências na escrita acabam variando muito, por isso é importante refletir a cerca desse contraste afim de melhorar os próprios textos de acordo com seus objetivos.

    Os leitores só têm contato com o produto final do escritor, escrever é um exercício solitário como já dito. Dificilmente temos contato com a produção da escrita de alguém, ou mesmo de alguma obra de arte, uma música ou pintura. Sem levar em conta todo esse processo invisível aos olhos da maioria, valores como o aprendizado do autor, seu crescimento pessoal e confrontos com os fracassos mal são percebidos e tendenciosamente atribuímos grandes habilidades como um dom ou facilidade nata. Quando assistimos a vitória de um atleta por exemplo, não temos a real dimensão de suas dificuldades pelo caminho. Infelizmente a maioria das pessoas só tem capacidade de perceber o valor das coisas comparando-as: o mais rápido, o mais forte ou o mais inteligente. Mal percebemos o real valor gerado em nossas próprias conquistas quanto mais em nossas inúmeras derrotas. Cada falha ou erro percebido melhora nossa perspectiva, porém o erro só tem valor quando admitido.

    Escrever realmente parece uma arte mas é uma habilidade que precisa de prática, é o artesanato do escritor e cada um aos poucos desenvolve o próprio estilo. Escrever é traduzir pensamentos em palavras para induzir palavras em pensamentos. Foi incrível perceber como tantas fontes diferentes apontavam para um mesmo fator: simplicidade. Mas as vezes não conseguimos reproduzir o modelo para um bom texto após algumas sequências de sucesso. Quanto mais praticidade em organizar as tarefas repetitivas mais espaço livre para a criatividade. Esta é apenas uma compilação de várias fontes que consultei para eu mesmo relembrar quando precisar, mas se você chegou até aqui também poderá te ajudar a escrever um bom texto.

1. Campbell, Joseph – The Hero with a Thousand Faces, 1949
2. Zinsser, William – On Writing Well, 1976
3. Vogler, Christopher – The Writer's Journey, adaptação do Herói de mil faces, 1998
4. Barbosa, Eduardo F. – Anotações pessoais sobre o livro como escrever bem, 2011
5. Vikas G. Ashok; Song Feng e Yejin Choi –Algorithm of Success, Stony Brook University, 2014
6. Pinker, Steven – Guia de Escrita: como conceber um texto com clareza, precisão e elegância, 2016

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